Pílulas Agridoces
Reflexões sinceras sobre dinheiro, escolhas e o que aprendemos no caminho
Nos idos do início dos anos 2000, eu tinha um blog. Ele se chamava Pílulas Agridoces. Agridoce como eu.
Quase 20 anos depois, resolvi fazer uma homenagem àquele espaço de troca e reflexão, pré-ódio na internet, para revivê-lo aqui no Substack. O nome ainda se mantém atual. Talvez o tempo tenha me dado mais umami nesta vida, mas o tema com o qual escolhi trabalhar pode ser doce como mel, e também amargo como limão. A nossa relação com o dinheiro.
Decidi ressuscitar o nome e a prática da escrita, indo contra a maré de quem prefere esperar sair em filme (ou em reels), e vamos ver para onde nos leva! 🙂
Dinheiro e cultura - como rola essa conversa?
Alguns dos meus aprendizados sobre a minha relação com o dinheiro vieram de morar em outros lugares e conviver com outras pessoas e culturas. Explico.
Além da parte mais comum como planejar, organizar e poupar uma quantia para poder viajar e me estruturar em um novo lugar por um tempo, refiro-me ao convívio num novo ambiente, com hábitos diferentes do que estava acostumada, com uma forma de pensar que parte de outros pressupostos e, claro, de uma cultura diferente.
Morei na Holanda por cinco anos e para além de canais, bicicletas e coffee shops, o que me chamou a atenção logo de cara foi um traço cultural que muitos holandeses até se orgulham: ser mão-de vaca.
Caderno especial de luxo de jornal holandês com uma seleção dos 100 melhores vinhos. De supermercado.
Existe até a expressão em inglês “go Dutch” (Dutch significa “holandês” em inglês) que dizer dividir a conta, especialmente em relação à comida em bares e restaurantes, de acordo com o que cada um consumiu.
Não vou negar que eu me senti muito acolhida naquela nova cultura neste ponto! Desde criança, eu era tachada como mão-de-vaca e isso não era um elogio!
Assim como o pix é muito popular no Brasil, há o Tikkie, um aplicativo para enviar e receber cobranças, normalmente usado depois de um jantar com colegas, amigos e até encontros. Um choque cultural para recém-chegados, mas logo vira super normal receber ou mandar um link de cobrança de acordo com o consumo de cada um (geralmente acompanhada da foto da conta para que cada um possa fazer sua conta, inclusive).
Logo percebi que falar sobre dinheiro também era muito diferente do que eu estava acostumada.
Me vi tendo conversas com meu vizinho ou colega de trabalho sobre quanto era o nosso salário bruto e líquido, quanto iria ganhar no novo emprego e se valeria a pena fazer um financiamento de uma casa enquanto tomávamos um café.
Até para mim, que sempre me interessei pelo tema, surgiu um certo desconforto nas primeiras vezes em que essas conversas aconteceram. Afinal, onde já se viu conversar sobre o próprio dinheiro de forma tão direta e cotidiana!
Até que um dia, durante a pandemia, trabalho remoto, rotina pesada e sem a boa e velha tradição da conversa ao lado do café, uma colega de trabalho me mandou uma mensagem instantânea pedindo pra fazer um café virtual no fim do dia.
Na videochamada, sem muito rodeio, ela dispara:
“Quanto você ganha de salário? Porque eu conversei com meu namorado e ele acha que eu ganho muito pouco. Aí, falei com uma amiga, e ela me disse que ganha o mesmo que eu, por hora, trabalhando como repositora no supermercado. Conversei com outra colega nossa e ela ganha na mesma faixa que eu. Isso é porque somos funcionárias mais novas ou realmente essa é a faixa salarial da empresa neste cargo?”.
Fui pega de surpresa, mas ao desligar a chamada também admirei essa jovem.
Sim, chegamos à conclusão de que a empresa pagava bem abaixo do mercado para aquela função naquele lugar.
Meses depois, pedi demissão por outros motivos, e ela - com outras quatro colegas - se reuniu e conversou com o chefe e conseguiu um aumento de cerca de 30% para todas.
Isso só aconteceu porque elas conversaram com colegas, amigos, outros profissionais da mesma área e entre si. Em poucos meses, tiveram aumento e ganhavam mais do que eu, quando saí da empresa depois de dois anos.
Definitivamente, experimentar uma forma cultural diferente da que eu estava acostumada em relação ao dinheiro ajudou muito a moldar como tento lidar hoje em dia.
E para quem acha que isso só acontece em outro país, deixo um convite para o mesmo experimento que uma cliente fez há uma semana:
Quando encontrar um amigo, um familiar que você se sinta à vontade, pergunte, ouça, conte.
Se você está em busca de um emprego ou promoção, pergunte a um colega que já chegou lá quanto é a faixa salarial para aquela função.
Se está em dúvida sobre a sua precificação, pergunte como outros profissionais que você conhece e admira definem a deles.
Se quer viajar para um destino específico, pergunte quanto gastou aquele amigo que acabou de retornar.
Você pode se surpreender com o quanto essa troca pode ser mais fácil, e mais rica do que imagina.
☕ Um convite
E se você quer conversar sobre a sua relação com dinheiro com alguém que possa trazer um olhar externo e ajudar na sua organização financeira pessoal, mande uma mensagem para mim! Agendamos um papo online para entender melhor como a consultoria de planejamento financeiro pode te apoiar.
🎧 Para ouvir com calma
E se esse papo todo sobre conversar sobre dinheiro para além dos números te interessou, recomendo o episódio com a Vivian Rodrigues no podcast Jornada da Calma.



Ahhh Carol! Eu ameeei ler sobre a sua experiencia